IN MEMORIAM DE UM OUTRO LIVRO


Foi a primeira vez que um outro livro dormiu sob seu travesseiro. Sim, penso que naquela noite a virgindade se foi, naquela cama, naqueles lenções, naquelas cobertas et cetera, ali, in loco. Ali já se deitou e deleitou uma bíblia, um livro “dos sonhos”; daqueles que vem com os números da mega-sena e tudo, daqueles que nem se quer souberam que Freud existiu, mas tem vasto conhecimento sobre os sonhos, para cada inconsciência um déficit ou superávit.

Nunca vi outro tipo de livro sob aquele teto e consequentemente nunca sobre aquela cama, sei que lá se deita um corpus e suas intempéries. Nunca vi aquele corpus lendo um livro, nem os que já dormiram sob seu travesseiro, com certeza devem ler escondido. 

Minerva deve abençoar essa pessoa melhor, em sua solidão. O máximo que já vi aquela pessoa ler, foram: as intermináveis cinco linhas dos imensos folhetos que os Testemunhas de Jeová entregam-na todo sábado às 11h da manhã, faz parecer que a pessoa é parte do quórum e que sem ela as coisas não tem poder. Reza uma lenda que os Testemunhas vão nas casas nesse horário só para queimar o feijão dos visitados, já me disseram que essa é a meta, e quando é alcançada, algumas almas são salvas. Não sei, mas reza a lenda.

Falei, falei e nem falei como o tal outro livro chegou à cama virgem. Eu e meu livro – livro este que ganhei de uma gigantesca amiga que fizera até dedicatória depois da capa, como é de praxe – fomos ao recinto para o deleite, pena não ter leite e muito menos doce-de-leite, mas fomos com a priori de ler, já que a dona da cama não estava lá, um álibi ela tinha, tudo bem, melhor seguir... convidei um livro urbano e cotidiano, ele veio e me disse: “carpe diem!”. Respondi: “idem! Que assim seja”. E o aproveitei, li tais crônicas e alguns neurônios foram se unindo da mesma forma que minha sobrinha ia fazendo aquele castelo de lego, peça por peça, neurônio por neurônio. É preciso certo labor, mas quando o castelo fica pronto... é lindo, aquele monte de cores e suas curvas quadradas, de tanto laborioso, isso deveria entrar no curriculum vitae das crianças, “Cargos Anteriores: Construtor de castelos de lego”.

Após umas crônicas fui me rendendo aos braços de João Pestana, que provavelmente é o autor do livro “dos sonhos”.

22/04/14 06h00min 

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